É chegado o momento das decisões. O espírito alviverde para encarar a Juventus na final era outro. Já a equipe italiana contava com uma infinidade de atletas em nível de seleção, com destaque para os dinamarqueses Karl Hansen, John Hansen e Praest, além do lendário atacante Boniperti, que defendeu a Azzurra por 15 anos e foi algoz palmeirense no primeiro encontro.

Uma “onda palmeirense” invadiu o Rio de Janeiro e lotou o Maracanã naquele 18 de julho. O estádio veio abaixo quando Rodrigues marcou 1 a 0 para o Verdão ainda no primeiro tempo, e o resultado foi mantido até o apito final do árbitro Franz Grill.

O clima de euforia entre os palmeirenses era evidente. Para ser o primeiro campeão do mundo de clubes, bastava um empate diante da Vecchia Signora para soltar o grito. Os caminhos das equipes se cruzaram outra vez no dia 22 de julho, e novamente no Maracanã. Aos gritos de “Brasil, Brasil”, entoados pela massa presente ao estádio, o Verdão viu o rival abrir o placar com Praest, aos 18 minutos da primeira etapa.

A vantagem bianconera persistiu até o final do primeiro tempo. Sem se deixar abalar, o Palmeiras buscou o empate logo no início da etapa final: após boa jogada com Canhotinho, Liminha lançou Lima, que arrematou na trave. Na sobra, o atacante Rodrigues igualou o marcador e levou o Maracanã ao delírio.

A euforia verde no reduto carioca, no entanto, durou apenas 16 minutos. Karl Hansen, aos 18, recolocou a Juventus na frente, e trouxe à tona novamente o clima de apreensão. A esperança palmeirense de título, porém, veio dos pés de Liminha. Aos 32 minutos da etapa final, o meia driblou dois marcadores italianos, chutou sobre o goleiro Viola, pegou o rebote e entrou com bola e tudo no fundo das redes. O estádio veio abaixo com o tento palmeirense, e o apito final do árbitro francês Gabriel Tordjan minutos mais tarde “deu por terminada a peleja” na voz do narrador Oduvaldo Cozzi: o Palmeiras conquistava o mundo pela primeira vez na história do futebol!

A primeira partida:

  • 18/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Final (primeiro jogo)
  • Palmeiras 1×0 Juventus
  • Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
  • Juiz: Franz Grill (Áustria)
  • Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Lima, Ponce de León, Liminha, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Piccinini; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Vivole e Praest. Técnico: Jesse Carver
  • Gols: Rodrigues (20’ do 1ºT)

A segunda partida:

  • 22/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Final (segundo jogo)
  • Juventus 2×2 Palmeiras
  • Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
  • Juiz: Gabriel Tordjan (França)
  • Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Lima, Ponce de León (Canhotinho), Liminha, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon
  • Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Bizzoto; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen e Praest. Técnico: Jesse Carver
  • Gols: Praest (18’ do 1ºT), Rodrigues (2’ do 2ºT), Karl Hansen (18’ do 2ºT) e Liminha (32’ do 2ºT)

Adversário do Verdão na semifinal, o Vasco da Gama, líder de seu grupo, atropelou os adversários com três vitórias, sendo duas delas por goleada – 5 a 1 no Sporting, 5 a 1 no Áustria Viena e 2 a 1 no Nacional. Apesar da derrota frente aos vascaínos, os austríacos venceram seus outros dois jogos e também avançaram, para enfrentar a Juventus.

Empolgado pela ótima fase inicial, o Cruz-Maltino recebeu o Palmeiras em um Maracanã lotado. A partida ficou marcada pela contusão de Aquiles, que fraturou a perna em dividida com o goleiro Barbosa, ficando sete meses sem poder atuar. O atacante virou uma espécie de mártir do elenco, que, após o acidente prometeu conquistar o título de qualquer forma. A primeira vítima foi justamente o Vasco, que saiu derrotado por 2 a 1 no primeiro jogo da semifinal, com gols de Richard e Liminha; Maneca descontou. Quatro dias depois, os valentes atletas do Verdão seguraram a base da Seleção Brasileira de 50 e empataram em 0 a 0, também no Maracanã, classificando o Palmeiras para a grande final.

A primeira partida:

  • 11/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Semifinal (primeiro jogo)
  • Palmeiras 2×1 Vasco
  • Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
  • Juiz: Edward Graigh (Inglaterra)
  • Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme (Túlio), Luiz Villa e Dema; Liminha, Aquiles (Ponce de León), Richard, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Vasco: Barbosa; Augusto e Clarel; Eli, Danilo e Alfredo; Tesourinha, Ipojucan (Vasconcelos), Friaça, Maneca e Djair. Técnico: Oto Glória.
  • Gols: Richard (24’ do 1ºT), Maneca (1’ do 2ºT) e Liminha (37’ do 2ºT)

A segunda partida:

  • 15/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Semifinal (segundo jogo)
  • Vasco 0x0 Palmeiras
  • Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
  • Juiz: Franz Grill (Áustria)
  • Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Liminha, Ponce de León, Richard (Lima), Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Vasco: Barbosa; Augusto e Clarel; Eli, Danilo e Alfredo; Tesourinha, Vasconcelos, Friaça, Maneca e Djair. Técnico: Oto Glória.

O confronto entre Palmeiras e Juventus ocorreu na tarde de 8 de julho. Para o Verdão, bastava um empate para assegurar a primeira colocação do grupo. O adversário, porém, contava com Giampiero Boniperti em dia inspirado – o futuro artilheiro da competição marcou duas vezes antes de o cronômetro atingir a casa dos 20 minutos. O Alviverde não teve forças para se recuperar e assistiu aos dinamarqueses Karl Hansen e Praest ampliarem, totalizando um inesperado 4 a 0.

Apesar da derrota, o Alviverde se classificou em segundo lugar e enfrentou o adversário mais difícil nas semifinais. Mas a principal sequela daquela partida foi a saída do histórico goleiro Oberdan Cattani do time titular – o experiente arqueiro acabou culpado pelos gols sofridos, e Fábio Crippa assumiu a titularidade no restante da campanha.

  • 08/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Fase de grupos (3ª rodada)
  • Palmeiras 0x4 Juventus-ITA
  • Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
  • Juiz: Edward Graigh (Inglaterra)
  • Palmeiras: Oberdan; Sarno e Juvenal; Waldemar Fiúme, Túlio e Dema; Lima, Aquiles, (Ponce de León), Liminha, Canhotinho (Jair Rosa Pinto) e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Piccinini; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen (Vivole) e Praest. Técnico: Jesse Carver.
  • Gols: Boniperti (10’ do 1ºT), Boniperti (18’ do 1ºT), Karl Hansen (3’ do 2ºT) e Praest (35’ do 2ºT)

O confronto seguinte do Verdão foi diante do Estrela Vermelha, campeão da Copa da Iugoslávia de 1950, e que possuía sete atletas na Seleção de seu país – equipe que, inclusive, deu trabalho para o Brasil na primeira fase da Copa do Mundo de 1950, mas acabou derrotada por 2 a 0.

Pressionados após os dois triunfos dos rivais italianos, os palmeirenses levaram seu primeiro susto no torneio. Tihomir Ognjanov, atleta da Seleção Iugoslava e que também marcou durante a Copa de 1950, abriu o placar. Ainda na primeira etapa, o veloz Aquiles tranquilizou novamente a torcida palestrina, igualando o marcador. Faltando 15 minutos para o apito final, quando tudo levava a crer que o empate se concretizaria, o atacante Liminha explodiu os alviverdes presentes no Pacaembu. O Verdão chegou para enfrentar a Vecchia Signora – apelido da Juventus de Turim – com 100% de aproveitamento.

  • 05/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Fase de grupos (2ª rodada)
  • Palmeiras 2×1 Estrela Vermelha-IUG
  • Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
  • Juiz: Gabriel Tordjan (França)
  • Palmeiras: Oberdan; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Dema; Lima, Aquiles, Liminha, Jair Rosa Pinto (Canhotinho) e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Estrela Vermelha-IUG: Krivokuca Srboljuc; Tadic e Stankovi Branko; Palfi Bena, Duratinec e M. Disuic; Ognjanov, Mitic Raiko, Tomasevic Kosta, Djajic Predrag e Vukosavljevic Bane. Técnico: Lubisa Brocci.
  • Gols: Ongjanov (8’ do 1ºT), Aquiles (30’ do 1ºT) e Liminha (35’ do 2ºT)

Diante do Olympique Nice, campeão francês da temporada 1950/51, os palmeirenses estrearam no torneio com o pé direito. Apesar do nervosismo que tomou conta do semblante da equipe alviverde na etapa inicial de jogo – naquele 30 de junho de 1951, o árbitro austríaco Franz Grill encerrou o primeiro tempo com um persistente 0 a 0 no marcador do Pacaembu. Na segunda etapa, Aquiles, de pênalti, Ponce de León e Richard sacramentaram a vitória alviverde por 3 a 0.

  • 30/06/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Fase de grupos (1ª rodada)
  • Palmeiras 3×0 Nice-FRA
  • Estádio do Pacaembu, em São Paulo-SP
  • Juiz: Franz Grill (Áustria)
  • Palmeiras: Oberdan; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Dema; Lima, Aquiles (Richard), Ponce de León, Jair Rosa Pinto (Rodrigues) e Canhotinho. Técnico: Ventura Cambon.
  • Nice-FRA: Robert Germani; Serge Pedin e Mohamed Firoud; Jean Belver, Cesar Gonzalez e Rossi Leon; Bonifaci Antoine, Bengtsson Per, Yeso Amalfi, Désir Carre e Hjalmars Ake. Técnico: Numa Andoire
  • Gols: Aquiles (8’ do 2ºT), Ponce de León (11’ do 2ºT) e Richard (30’ do 2ºT)

No Mundial de 2020 (realizado em fevereiro de 2021) o site da FIFA publicou post com um imagem de seu Instagram anos antes.

Nessa postagem do Insta, a FIFA apontava que o Palmeiras 65 anos atrás, “tornava-se o primeiro campeão intercontinental de clubes“.

O link do post é esse: fifa.com/…/superheroesingreen.

O texto, no original extraído do site da FIFA está abaixo.

Global glory for ‘The Big Green’

Year: 1951 Superhero: Liminha Heroes: Fabio Crippa, Waldemar Fiume, Canhotinho, Jair Rosa Pinto, Rodrigues. Coach: Ventura Cambon

A world championship had been dreamed of and discussed for years by some of football’s foremost shot-callers – Jules Rimet, Ottorino Barassi and Stanley Rous among them – and was finally scheduled for 1951 in Brazil, which had recently hosted the FIFA World Cup™. The eight-team competition involved some of Europe’s top teams, Uruguayan behemoths Nacional and Brazilian duo Vasco da Gama and Palmeiras, who qualified as Rio-Sao Paulo Tournament winners.

The favourites were Juventus, who boasted an exceptional attack featuring Karl Aage Hansen, Karl Aage Praest, John Hansen and Giampiero Boniperti, and Vasco, who supplied eight members of Brazil’s World Cup squad the previous year. The duo’s status as favourites was strengthened in the group stage, with the Carioca colossuses thrashing Sporting Lisbon and Austria Vienna 5-1 and the Turin titans thumping Palmeiras 4-0.

The Paulista powerhouses, however, had other ideas and, brushing aside injury blows, beat Vasco 2-1 over 180 minutes in the semi-finals and stunned Juve 1-0 in the first leg of the final. Rio de Janeiro was packed on the day of the decider, with a reported 10,000 Italians cramming into its hotels, certain Juventus would emerge triumphant. Yet Liminha, a 21-year-old who had began the tournament on the bench, helped set up the first equaliser and scored a late, title-clinching goal in a 2-2 draw in front of over 100,000 at the Maracana.