O confronto entre Palmeiras e Juventus ocorreu na tarde de 8 de julho. Para o Verdão, bastava um empate para assegurar a primeira colocação do grupo. O adversário, porém, contava com Giampiero Boniperti em dia inspirado – o futuro artilheiro da competição marcou duas vezes antes de o cronômetro atingir a casa dos 20 minutos. O Alviverde não teve forças para se recuperar e assistiu aos dinamarqueses Karl Hansen e Praest ampliarem, totalizando um inesperado 4 a 0.

Apesar da derrota, o Alviverde se classificou em segundo lugar e enfrentou o adversário mais difícil nas semifinais. Mas a principal sequela daquela partida foi a saída do histórico goleiro Oberdan Cattani do time titular – o experiente arqueiro acabou culpado pelos gols sofridos, e Fábio Crippa assumiu a titularidade no restante da campanha.

  • 08/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Fase de grupos (3ª rodada)
  • Palmeiras 0x4 Juventus-ITA
  • Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
  • Juiz: Edward Graigh (Inglaterra)
  • Palmeiras: Oberdan; Sarno e Juvenal; Waldemar Fiúme, Túlio e Dema; Lima, Aquiles, (Ponce de León), Liminha, Canhotinho (Jair Rosa Pinto) e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Piccinini; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen (Vivole) e Praest. Técnico: Jesse Carver.
  • Gols: Boniperti (10’ do 1ºT), Boniperti (18’ do 1ºT), Karl Hansen (3’ do 2ºT) e Praest (35’ do 2ºT)

O confronto seguinte do Verdão foi diante do Estrela Vermelha, campeão da Copa da Iugoslávia de 1950, e que possuía sete atletas na Seleção de seu país – equipe que, inclusive, deu trabalho para o Brasil na primeira fase da Copa do Mundo de 1950, mas acabou derrotada por 2 a 0.

Pressionados após os dois triunfos dos rivais italianos, os palmeirenses levaram seu primeiro susto no torneio. Tihomir Ognjanov, atleta da Seleção Iugoslava e que também marcou durante a Copa de 1950, abriu o placar. Ainda na primeira etapa, o veloz Aquiles tranquilizou novamente a torcida palestrina, igualando o marcador. Faltando 15 minutos para o apito final, quando tudo levava a crer que o empate se concretizaria, o atacante Liminha explodiu os alviverdes presentes no Pacaembu. O Verdão chegou para enfrentar a Vecchia Signora – apelido da Juventus de Turim – com 100% de aproveitamento.

  • 05/07/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Fase de grupos (2ª rodada)
  • Palmeiras 2×1 Estrela Vermelha-IUG
  • Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
  • Juiz: Gabriel Tordjan (França)
  • Palmeiras: Oberdan; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Dema; Lima, Aquiles, Liminha, Jair Rosa Pinto (Canhotinho) e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
  • Estrela Vermelha-IUG: Krivokuca Srboljuc; Tadic e Stankovi Branko; Palfi Bena, Duratinec e M. Disuic; Ognjanov, Mitic Raiko, Tomasevic Kosta, Djajic Predrag e Vukosavljevic Bane. Técnico: Lubisa Brocci.
  • Gols: Ongjanov (8’ do 1ºT), Aquiles (30’ do 1ºT) e Liminha (35’ do 2ºT)

Diante do Olympique Nice, campeão francês da temporada 1950/51, os palmeirenses estrearam no torneio com o pé direito. Apesar do nervosismo que tomou conta do semblante da equipe alviverde na etapa inicial de jogo – naquele 30 de junho de 1951, o árbitro austríaco Franz Grill encerrou o primeiro tempo com um persistente 0 a 0 no marcador do Pacaembu. Na segunda etapa, Aquiles, de pênalti, Ponce de León e Richard sacramentaram a vitória alviverde por 3 a 0.

  • 30/06/1951
  • Mundial de Clubes de 1951 – Fase de grupos (1ª rodada)
  • Palmeiras 3×0 Nice-FRA
  • Estádio do Pacaembu, em São Paulo-SP
  • Juiz: Franz Grill (Áustria)
  • Palmeiras: Oberdan; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Dema; Lima, Aquiles (Richard), Ponce de León, Jair Rosa Pinto (Rodrigues) e Canhotinho. Técnico: Ventura Cambon.
  • Nice-FRA: Robert Germani; Serge Pedin e Mohamed Firoud; Jean Belver, Cesar Gonzalez e Rossi Leon; Bonifaci Antoine, Bengtsson Per, Yeso Amalfi, Désir Carre e Hjalmars Ake. Técnico: Numa Andoire
  • Gols: Aquiles (8’ do 2ºT), Ponce de León (11’ do 2ºT) e Richard (30’ do 2ºT)

Em 7 de junho de 2014, no Hotel Grand Hyatt em São Paulo, alguns dias antes do início da Copa do Mundo de 2014, o Comtê Executivo da FIFA se reuniu para deliberar sobre 4 assuntos:

Um destes assuntos como está descrito acima era confirmar a requisição da CBF para reconhecer a Copa RIo 1951 vencido pelo Palmeiras como uma competição de clubes mundial.

A ata anexa em PDF, com tradução juranmentada pelo amigo Vittorio Pescosolido, descreve a reunião.

Clique aqui e baixe o anexo em inglês e com tradução em português para ler.

Durante todo o período de pesquisa e trabalho referente à Copa Rio, Felipe Virolli sempre que necessário fez contato com o renomado jornalista Claudio Carsughi, que foi testemunha ocular do torneio.

Trazemos no 3VV essa coletânea, com importantes opiniões de Carsughi, que vivenciou e cobriu jornalisticamente a competição, e que tem muita propriedade para falar sobre o assunto:

Entrevista de Felipe Virolli com Claudio Carsughi.

Felipe Virolli (FV): Você cobriu a Copa Rio em 1951. Qual a sua opinião sobre aquela competição, vencida pelo Palmeiras?

Cláudio Carsughi (CC): A história é longa, mas vou tentar resumi-la ao máximo. Após a Copa do Mundo de 1950, os dirigentes entenderam que era necessário organizar um grande torneio de clubes, de forma a apagar da memória dos torcedores, parte da enorme decepção sofrida na inesperada derrota frente ao Uruguai. A idéia ganhou de imediato total apoio da FIFA, através da ação direta de seu vice-presidente, o italiano OttorinoBarassi, que até mesmo se dispôs a vir ao Brasil várias vezes para conferir à chamada “Copa Rio” um cunho oficial.

Assim foi criada essa competição, que contou com a participação de vários dos melhores clubes europeus, e que foi denominada “Torneio dos Campeões”.

Na época, a Copa Rio era considerada a “Copa do Mundo de Clubes” ou não tinha a mesma importância que tem hoje o atual “Mundial da FIFA”?

Valia o mesmo título de “campeão do mundo”, mas em minha opinião, a Copa Rio era muito mais importante na época do que é hoje o atual Mundial de Clubes da FIFA, que se resume ao jogo final.

FV: E o título do Fluminense, na segunda edição da Copa Rio, teve o mesmo valor que o título do Palmeiras?

CC: A segunda edição da Copa Rio não teve o mesmo impacto, importância e dimensão da primeira, ficando muito longe dela em todos os aspectos, até mesmo pelo menor nível técnico dos participantes.

FV: Mas na época em o clube carioca foi campeão, como a imprensa classificou o título?  Atribuiu o mesmo “rótulo” de campeão mundial do Palmeiras ou os diferenciava?

CC: Ocorreu uma certa divisão. A imprensa paulista não lhe deu a mesma importância, mas a carioca, sim. O que é claramente explicável pela rivalidade regional existente no Brasil.

FV: Mas o que o correspondente Cláudio Carsughi, do diário italiano “Corriere dello Sport” escreveu (ou escreveria) sobre o título do Fluminense?

CC: A imprensa italiana não deu grande importância à Copa Rio de 1952, considerando-a um torneio de segunda categoria, não comparável, de forma alguma, à primeira edição, que tinha sido considerada quase como uma revanche da Copa do Mundo, e que permitira ao público brasileiro sair da fase de profunda decepção, ocasionada pelo desfecho de 1950.  Paralelamente, o vice-presidente da FIFA, o italiano Ottorino Barassi, que muito tinha se empenhado para o sucesso da Copa Rio de 1951, praticamente não mexeu uma palha na segunda edição.

FV: Embora parte da imprensa ignore esse fato, o Palmeiras é reconhecido pela FIFA (desde 2014) como campeão mundial. Você é favorável a esse reconhecimento?

Claro. Na época, nenhum dirigente do Palmeiras se preocupou em dar prosseguimento às negociações com a FIFA para oficializar de vez o valor da conquista, entendendo que o título de “campeão do mundo” informalmente dado lhe seria suficiente. E isso teria sido muito fácil, exatamente pela presença de Ottorino Barassi como vice-presidente da FIFA.

FV: E o Fluminense, por ter vencido a segunda edição da Copa Rio, não merece o mesmo reconhecimento da entidade máxima do futebol?

CC: A questão é discutível. A competição foi repetida, mas já sem o apoio da FIFA, e a coisa acabou por aí. Não seria nenhum absurdo, mas certo é que foi muito maior a importância da primeira Copa Rio do que a da segunda. A partir daí, cada qual pode tirar suas próprias conclusões.

FV: Outro campeonato bastante polêmico é o Mundial da FIFA de 2000, conquistado pelo Corinthians. Você acha que podemos compará-lo à Copa Rio?

CC: Não resta dúvida que a Copa Rio foi a semente daquele torneio que, muitas décadas depois, a FIFA organizou no Rio de Janeiro, em 2000. Mas que me desculpem os torcedores corinthianos, mas não dá para comparar aquele torneio com a Copa Rio, especialmente a de 1951.

A Copa Rio foi realmente uma coisa séria, onde todos vieram para jogar futebol e tentar obter o melhor resultado. Não tem nenhuma comparação.